Na passada semana fui abalado com a notícia do despedimento de uma funcionária do Sporting que me é muito querida: a Nélida Gomes.
Não me compete, por maior amizade que possa ter por alguém, fazer juízos de valor sobre a posição tomada por quem gere os destinos do nosso Clube, mas gostaria de saber os motivos invocados para se prescindir de alguém que respira Sportinguismo por todos os seus poros e que, tanto quanto sei, se tratava de uma profissional exemplar.
Estando eu há mais de 20 anos ligado ao movimento dos Núcleos, tive o prazer de, desde a primeira hora da sua entrada para o Sporting, privar de muito perto com “a minha jóia” (termo carinhoso com que a trato)…
A Nélida Gomes irradiou simpatia em todos os Núcleos que visitou em serviço, e não só. A sua beleza interior adicionada ao seu lindo sorriso, tornou-a num membro da “nossa grande família” até pelo reconhecimento que tinha da dedicação que os dirigentes dos Núcleos entregam aos Ideais Leoninos.
Fui recebedor de uma carta da Nélida Gomes, que tomo a liberdade de vos dar conhecimento, onde fica demonstrado que, numa hora que poderia ser de revolta pessoal por se ver desempregada após 18 anos de dedicação, mas que, ao contrário, se limita a transmitir tudo o que de bom retirou desse tempo.
Na hora da despedida, não há ódio mas sim estima e, essencialmente, um orgulho enorme de ser SPORTINGUISTA.
Faço votos para que tenha um futuro igual à grandeza que sempre demonstrou…
Obrigado “minha Jóia” por seres minha amiga
“ADEUS MEUS AMIGOS!
Chegou ao fim a minha passagem pelo nosso Sporting Clube de Portugal. Chegou ao fim enquanto funcionária, mas não como sócia e adepta apaixonada pelo nosso emblema.
Vi chegar muita gente ao nosso Clube porque, a brincar, acabei por trabalhar no Sporting 18 anos. E curiosamente, foi metade da minha vida, uma vez que tenho 36!
Cheguei pela mão do Maurício do Vale para trabalhar num jornal que, ao contrário do meu anterior emprego, o jornal “O Jogo” (onde já tudo era informatizado), ainda se escrevia à máquina e se desenhavam as páginas a lápis de cor. Tive vários directores nesta minha passagem ... E com todos eles aprendi. Perdoem-me, no entanto, que enalteça, em especial, o Ruben Coelho que foi, sem dúvida, a melhor pessoa que conheci no nosso Clube. Um exemplo que seguia, pois ele transpira sportinguismo. Ele sempre me mostrou porque razão existe um lema que fala em esforço, dedicação e devoção.
…E, aos longos destes anos, também fui conhecendo muitas pessoas, muitos guerreiros, e ganhei uma família linda, que levo no meu coração.
Sei os milagres que se fizeram, especialmente quando nem dinheiro havia para os ordenados. Aí houve amor de verdade, porque só os «ratos» abandonam o barco quando este está em vias de se afundar... e o Sporting está cheio de «leões» que nunca viram a cara à luta. Felizmente!
Fiz parte da equipa de trabalho que lançou o primeiro site oficial do Clube – o único premiado até hoje – e quando mais nenhum Clube em Portugal se podia orgulhar de ter algo tão gigantesco. O Sporting estava, finalmente, a ser divulgado como merecia pelo Mundo fora.
Fiz parte da equipa de trabalho que lançou uma Newsletter do Clube para os sócios e que até criou uma intranet. Mais uma forma de divulgar o nosso emblema. E celebrei muitos títulos. Sim, muitos. Porque eu não sou Sporting só de futebol. Eu sou Sporting do futebol, do andebol, do futsal, do atletismo, da natação, do ténis de mesa, do hóquei em patins, da ginástica, das modalidades de combate, do bilhar, do tiro, enfim, SOU SPORTING.
E sou SPORTING DOS NÚCLEOS, DAS FILIAIS E DAS DELEGAÇÕES. Foram anos e anos a viajar país fora, dia e de noite, por vezes com uma ou duas horas dormidas, porque no dia seguinte lá tinhamos nós que nos pôr à estrada. Vivi histórias lindas e essas recordarei com todo o meu amor. Ali sim, vi Sporting de paixão. Vi sócios cinquentenários que nunca, sequer, tinham viajado para Lisboa... mas que eram sócios com todo o seu orgulho. À Isabel Trigo de Mira e ao Dr. Menezes Rodrigues agradeço, do fundo do meu coração, ter-me dado a oportunidade de conhecer um Sporting que poucos conhecem. OBRIGADO.
E, no meio disto tudo, há momentos que ficam para sempre. Vi nascer a Academia. Vi acontecer o seu primeiro golo oficial (marcado pelo Edgar Marcelino, numa vitoria de 8-0, frente ao Odivelas), vi nascer o novo Estádio (e tambem vi acontecer o seu primeiro golo apontado por Luís Filipe, num dia em que perdemos um grande: o nosso Cristiano) e vi morrer o antigo Estádio. Partilhei lágrimas no adeus ao nosso velhinho estádio (desse sim tenho grandes saudades).
E vi nascer o nosso Museu Mundo Sporting. A maior riqueza do nosso Clube que tem à sua frente das melhores pessoas que conheci: Mário Casquilho! Do Mário Casquilho terei enormes saudades. Com ele aprendi muito do que sei do nosso Clube. Um bom homem, um bom amigo – alguém que ficará, sempre, no meu coração!
E também participei na festa dos 100 anos do nosso Clube.... 100 de muitos, espero eu! E estes momentos nunca os esquecerei.
E agora uma palavra muito especial para os meus companheiros de trabalho. Como disse, vi chegar a grande maioria. E estou orgulhosa, muito mesmo, porque deixo o Sporting de bem com toda a gente, de bem com todas as secções e departamentos. E sei que o sentimento é mútuo, porque deles recebi sempre muito carinho.
A terminar quero falar do jornal SPORTING e do jornal posso dizer, em primeiro lugar, que trabalhei com uma grande Mulher, uma mãe de todos, que recebeu nos braços os seus «pintainhos» e que tanto nos ensinou a honrar esta Instituição – a grande D. Leonor Roque (a funcionária que mais anos serviu esta Instituição – mais de 50 vejam só!).
Tinha o sonho de poder dizer que tinha estado na festa dos cem anos desta publicação – objectivo não cumprido! Tinha o sonho de ver este jornal reconhecido – objectivo não cumprido!
Fiz parte de um departamento que raras vezes tinha uma atenção especial. ..
Senti, muitas vezes, que estava a trabalhar por um capricho, pois assisti, e mais do que uma vez, a um jornal preterido em função de vaidades, de amizades, de acordos, de politicas e de tantas outras coisas. E vou embora sem perceber porque razão o jornal não era usado como ferramenta para passar mais mensagens, para comunicar mais com os sócios, tal qual a vontade daqueles que o fizeram nascer em 1922. Mas há jornais que vendem mais...
Com o passar do tempo, passsámos a ter uma equipa reduzida. Quatro redactores e um fotógrafo, dois paginadores e um revisor. E, mesmo assim, abraçámos o jornal, o site, a newsletter, fizemos videos e não permitimos que o barco se afundasse. Mas era essa a nossa obrigação, pois estar entre o clube e os sportinguistas era algo que não nos deixava desistir. E até nasceu um site do Sporting totalmente em inglês... que maravilha!
Mas crescemos com grande dignidade. Nem sempre conseguimos fazer um trabalho exemplar, mas sempre tivemos em conta o tal esforço, dedicação e devoção. Isso sim, SEMPRE.
…) quero terminar dizendo que ter trabalhado no Sporting foi um honra... ENORME... vivi histórias lindas e, mais do que isso, criei laços de profunda amizade... amizades essas que serão eternas. Não levo mágoas. Triste sim, porque já lá vão tantos anos que tudo me vai fazer falta. Mas, a verdade, é que deixo o nosso Sporting tranquila, porque apesar de não ser a melhor profissional do Mundo, sei que sempre me esforçei para fazer o melhor possível.
Vou tranquila porque ganhei tantos mas tantos amigos, no Clube e além fronteiras, que só isso me enche a alma de alegria e vou feliz porque ter tido a melhor família do mundo a trabalhar comigo…
Agora vou à luta com a certeza de que tudo vai correr bem, quer para mim, como para o nosso Sporting.
BEIJÃO E MUITO OBRIGADO POR TUDO!”
Nélida Gomes
(ex-funcionária do Jornal Sporting)
11.08.2012 - Martinho Ramos








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